Monday, November 02, 2009

 

Full circle

"La plupart des hommes ont une idée si vague de la poésie que ce vague même de leur idée est pour eux la définition de la poésie." Paul Valéry

Found while browsing Bruno Andrade's movie blog, in a translation which cutifies the original. Link

The rationale behind this posting's title is something only I am privy to, perhaps.

Friday, October 30, 2009

 

ILLUSIONS PERDUES

Ilusões Perdidas
Autor: Honoré Balzac
Data: 1836-1843

RESUMO DO LIVRO

O livro possui duas personagens principais: Lucien Chardon e David Séchard, sendo dividido em três seções: “Os dois poetas”, “Um grande homem da província em Paris”, e “Ève e David” (rebatizada posteriormente como “Os sofrimentos do inventor”).
Parte 1: Os dois poetas
A primeira parte apresenta as duas personagens mencionadas acima em seu ambiente de origem, a cidade de Angoulème, na França. Lucien é o filho de um farmacêutico arruinado, que morre deixando a família em má situação financeira, após dedicar muitos anos à pesquisa de um remédio para gota, cujo segredo ele leva para o túmulo; sua viúva é obrigada a vender a farmácia. A mãe de Lucien, ao contrário do pai deste, é de origem nobre. Lucien tem uma irmã, Ève. David, o amigo de Lucien, é filho de um impressor, e, após realizar estudos em Paris, compra a companhia impressora do pai num péssimo negócio. O pai de David é um avaro que explora financeiramente o filho e, antes de vender a empresa ao filho, vende os direitos da impressão de um jornal à impressora concorrente, dos irmãos Cointet, o que praticamente condena o negócio de David ao fracasso. David, muito generoso, emprega seu amigo Lucien em sua impressora.
Lucien tem aspirações literárias; conhece o barão Sixte du Châtelet, cujo título de nobreza foi comprado; o barão entusiasma-se com Lucien e o apresenta à Sra. de Bargeton, da nobreza de Angoulème. A Sra. de Bargeton é casada com um homem mais velho que ela; sente-se atraída pela beleza e inteligência de Lucien, fazendo-o seu protegido na sociedade local. Esta sociedade, no entanto, é composta de filisteus e invejosos, rejeitando Lucien.
Ao surgirem boatos acusando a Sra. de Bargeton de infidelidade, ela impõe a seu marido que tome satisfações com o autor dos boatos, o que este, um marido obediente e passivo, imediatamente faz, através de um duelo do qual ele sai ileso, após ferir o seu oponente.
Paralelamente, David e Ève apaixonam-se e casam-se. David inicia uma reforma em sua casa para abrigar a mãe de Ève e o próprio Lucien.
Após o incidente do duelo, a Sra. de Bargeton decide ir morar em Paris, deixando seu marido na província. Ela propõe a Lucien que a acompanhe, no que ele concorda. Os dois fazem o início do trajeto separadamente, para não suscitar suspeitas, mas du Châtelet, que é rival de Lucien nas atenções da Sra. de Bargeton, segue-o.
David provê Lucien com uma razoável quantia de dinheiro para sua estada na capital, pondo em risco sua própria segurança financeira de recém-casado.
Parte 2: Um grande homem da província em Paris
Em Paris, du Châtelet encontra-se com a Sra. de Bargeton e a aconselha a não morar junto com Lucien, pois isso seria fatal para sua reputação em Paris. Lucien é obrigado assim a tomar um modesto apartamento para si.
Em Paris, a Sra. de Bargeton conta com a proteção da marquesa d'Espard, mulher influente nos círculos sociais da capital. A marquesa desaprova imediatamente a Lucien, devido a sua origem comum; ela impõe seus termos à Sra. de Bargeton, de protegê-la desde que ela se livre de Lucien. A Sra. de Bargeton rompe com Lucien.
Lucien tem dois livros escritos, um de poemas sobre flores chamado “As Margaridas”, e um romance histórico, “O Archeiro de Carlos IX”, os quais tenta vender. Não fica satisfeito com o valor que lhe é oferecido e não os vende.
Lucien faz amizade com Daniel d’Arthez, um jovem escritor de filosofia não publicado, que vive uma vida quase monástica, dedicada somente à sua obra. Daniel faz parte de um círculo de amigos de várias correntes de pensamento, com uma característica em comum: todos são idealistas e devotados a suas aspirações intelectuais. Esse grupo é chamado Cenáculo, e Lucien é tratado como verdadeiro amigo por todos.
Após o insucesso da venda de seus livros, a situação financeira de Lucien agrava-se, e ele decide procurar emprego como jornalista. Seus amigos do Cenáculo desaconselham-no dessa carreira, pois vêem o jornalismo como uma profissão corrupta. Lucien, no entanto, não lhes dá ouvidos.
Lucien conta seus problemas a Étienne Lousteau, que ele conhecia superficialmente do restaurante Flicoteaux, onde às vezes ambos se viam. Étienne trabalha como jornalista e promete apresentar Lucien a Finot, o dono de seu jornal. Antes, Étienne leva Lucien a vários livreiros aos quais Lucien tenta vender “As margaridas”. Os dois vão até as Galerias de Madeira, uma espécie de shopping center popular a céu aberto, e lá conseguem que o livreiro Dauriat fique com o livro para lê-lo.
À noite eles vão ver uma peça cômica, que deverá ser resenhada pelo jornal onde Étienne trabalha. Étienne é amante de Florine, uma das atrizes. Coralie, outra das atrizes, interessa-se por Lucien. Essas atrizes são mantidas por homens ricos, mais velhos e casados.
Lucien redige sua primeira resenha, elogiando a peça e particularmente Coralie. Ele acaba tomando-a como amante.
As resenhas dos jornais são geralmente compradas, seja com dinheiro ou com ingressos grátis, que podem então ser revendidos com lucro.
Lucien, com a ajuda de Lousteau, consegue que o jornal insira pequenos comentários maldosos a respeito de du Châtelet e da Sra. de Bargeton.
Lucien, através de um esquema de chantagens com o editor – Lucien ataca em uma resenha um dos autores publicados por ele – consegue publicar seu livro de poemas.
Lucien encontra a marquesa de Espard numa festa; ela lhe acena com a possibilidade de conseguir autorização do rei para o uso oficial do nome de sua mãe, conferindo-lhe assim status nobre. Em troca, Lucien deve parar os ataques à Sra. de Bargeton; além disso, Lucien deve abandonar o jornal no qual trabalha, o qual é de tendências liberais (anti-monarquistas), e filiar-se a um jornal monarquista.
Lucien segue os conselhos recebidos, sem saber que se trata de uma armadilha. Ele perde todos os seus amigos liberais, vicia-se em jogo, é obrigado a atacar o livro de Daniel d'Arthez, envolve-se num duelo com Michel Chrestien, um dos membros do cenáculo, é baleado, vê-se em terrível situação financeira, e não obtém o desejado direito ao uso de um nome nobre. Vende seu romance histórico a um pequeno editor.
Coralie adoece e morre. Lucien, na miséria, falsifica a assinatura de David Séchard em promissórias, paga suas dívidas, e abandona Paris.
Parte 3: Os sofrimentos do inventor, ou: Ève e David
Durante o tempo em que Lucien mora em Paris, David e Ève permanecem na província. David dedica-se a pesquisas para a fabricação de um papel barato, com a patente da qual pretende atingir a estabilidade financeira. Sua esposa assume o comando da impressora, revelando talento e iniciativa; ela inicia a impressão de um almanaque popular. Seus esforços são medrados pela ação de Cérizet, seu velho empregado, o qual trabalha como espião para os Cointet, seus concorrentes, que então imprimem um almanaque semelhante e lançam-no antes.
A notícia das promissórias assinadas por Lucien tem efeitos devastadores sobre a já precária situação financeira de David, que não possui fundos para saldar sua dívida. Os Cointet esperam que a situação de David o force a vender-lhes a impressora. Ao saber, por Cérizet, das pesquisas de David, passam também a ambicionar a posse da patente. Eles aliciam a seu serviço um ambicioso advogado chamado Petit-Claud, ao qual instruem para que ofereça seus serviços de defesa a David. As táticas de Petit-Claud são explicitamente direcionadas a causar um aumento explosivo das custas processuais. Em retorno por seus serviços, Petit-Claud obterá a mão de uma jovem que abrirá caminho para sua promoção a procurador federal
Uma ordem de prisão é expedida contra David, que se esconde na casa de uma amiga de Ève, que trabalha como lavadeira. Lá ele prossegue febrilmente em suas pesquisas científicas, esperando obter resultados que o tirem da situação em que está. Seu pai, que vive agora numa propriedade em que produz vinho, nega-se a ajudá-lo.
Nesse ponto, Lucien chega às imediações de Angoulème, alojando-se, exausto e ferido, na casa de um moleiro. Devastado ao saber dos males que causou a seu cunhado, afinal encontra sua irmã, que não revela o paradeiro do marido.
Sixte du Châtelet retorna a Angoulème ao mesmo tempo que Lucien, agora na condição de prefeito, e casado com a Sra. de Bargeton, cujo marido morrera há algum tempo. Lucien reintroduz-se no círculo deles, intermediado por Petit-Claud, e consegue reconciliar-se com a Sra. de Bargeton, e obter dela a promessa de interceder por David. Antes que isso ocorra, no entanto, Cérizet, , em conluio com os Cointet, falsifica a escrita de Lucien e faz chegar uma carta a David dizendo que tudo havia sido resolvido, e ele podia sair de seu esconderijo. David é preso logo em seguida.
Lucien, desolado, decide se suicidar. Retira-se para um lago nas imediações, onde pretende jogar-se, amarrado a um peso. É avistado, no entanto, por um clérigo ex-jesuíta (a ordem havia sido dissolvida) de passagem por ali, que salva o jovem e o convence a seguir como seu protegido para Paris. Ele manda dinheiro para saldar as dívidas de David, que no entanto chega atrasado demais.
Enquanto isso, David assina contrato com os Cointet vendendo a impressora e cedendo os direitos para exploração de sua patente, sendo libertado da prisão. Seu pai morre algum tempo depois, deixando uma substancial herança para ele.

Sunday, October 18, 2009

 

On the role of the teacher

This is not a conclusive analysis, but rather an introduction to some inquisitions which have been plaguing my brain for the last year or so. It comes also as a response to some observations made by some acquaintances, although this is not directly addressed to anyone, and I doubt that anyone but me will read it.
A teacher at an institution performs essentially two kinds of activities: teaching (during class hours, and possibly outside of them), and evaluating his or her students. A question that arises, pertinently or impertinently, is: who holds the power in this social intercourse? Upon a cursory analysis, one might see it as obvious that the teacher does. In some graduate courses, however, students are required to provide their assessment of their teachers. In undergraduate ones, or in elementary education, this is rarer or inexistent. Thus, it seems that the diploma bestows some power to students.
Let's take a specific angle. A class is something about which a student may privately have his own opinions ("it was good", "I did not like it"). Yet, how far can we sustain a categorization of it as a service performed by the teacher to his or her students? How conflicting would this categorization be to the essential hierarchy which places the teacher above the student? In a house or a corporation, it is not the servants or low-rank employees who give the orders.
So, perhaps the way things normally work is a little different, and classes signify something other than teachers passing knowledge to students. Perhaps, it is more like teachers laying out the conditions to which students will have to obey in order to receive a positive evaluation.
As long as there is an external academic control over what teachers teach, there is no problem in sight: both things amount to the same, i.e., the conditions for the positive evaluation of a student have a perfect correspondence with the acquisition of some knowledge or skill which have been prevalidated externally. However, everyone knows that said control is imperfect, which implies a certain degree of illegitimate use of power on the part of the teacher. This is often a silent operation, with no knowledge by the student that he or she is being manipulated or deceived into accepting something wrong or inappropriate. Sometimes, the teacher does not know it either.
I do not know how to pursue this analysis any further at the moment. I do not know even whether there is anything at all to be added to the above considerations. For what it is worth, however, and whatever bearing it may have on the previous theme, it is my personal view that a school, and a University especially, is the right place for the free exchange of ideas, and anyone who feels uncomfortable with that is in the wrong place to begin with.

Thursday, October 15, 2009

 

School is Paradise, volume 2 (in Portuguese)

Comentários comparativos sobre três textos de teoria poética.

Os textos analisados, respectivamente de Friedrich, de Man, e Berardinelli, são especificados nas referências no final deste trabalho. A seleção dos textos é do professor Marcos Siscar, que solicitou a análise comparada dos mesmos a seus estudantes.

Em primeiro lugar, é preciso notar um problema semântico importante na comparação dos textos, que é o fato de que Friedrich e Berardinelli usam o termo “moderno” (e seus derivados) com um significado meramente temporal, e de Man usa-o com um outro significado. Para Friedrich e Berardinelli, poesia moderna (como aliás está explícito, no caso de Friedrich, no subtítulo do seu livro) significa poesia do século XX, com um recuo não muito preciso até a metade do século XIX, e, no caso de Friedrich, limitando-se até por volta da metade do século XX, que é quando seu livro foi publicado. De Man explicita o sentido adotado por ele no começo de seu texto, onde ele deixa claro que “o termo ‘modernidade’ não é usado numa simples acepção cronológica como sinônimo aproximado de ‘recente’ ou ‘contemporâneo’ a que se acrescentou uma ênfase valorativa positiva ou negativa”. É interessante notar que o sentido adotado por ele se aproxima daquele adotado por Baudelaire em seu texto “O Pintor da Vida Moderna”. De Man ressalva que, por motivos pragmáticos, a consideração da literatura recente é favorecida, mas que isso obscurece o sentido teórico de Modernidade, que seria designativo de qualquer literatura que possibilite uma partilha com o leitor de seu “sentido de um presente temporal”. Baudelaire coloca a questão em termos de “extrair o eterno do transitório”.

Feita essa distinção semântica preliminar, faremos inicialmente um resumo das ideias de Friedrich, posto que elas são discutidas nos outros dois textos. Friedrich afirma que a obscuridade é uma característica da poesia europeia do século XX. Essa obscuridade é, segundo ele, proposital, com o objetivo de gerar tensão e estranhamento. As imagens ou significados evocados distanciam-se da realidade usual, criando uma nova realidade, absurda e anormal. A descrição de tal poesia tem que ser feita, ainda segundo Friedrich, por categorias negativas: “desorientação, dissolução do que é corrente, ordem sacrificada, incoerência, fragmentação, reversibilidade, estilo de alinhavo, poesia despoetizada, lampejos destrutivos, imagens cortantes, repentinidade brutal, deslocamento, modo de ver astigmático, estranhamento”. Traçando a pré-história desses conceitos, Friedrich encontra seu germe em Rousseau e Diderot, e a seguir, mais enfaticamente, em Novalis. O Romantismo deu mais um passo em direção ao moderno, introduzindo o exagero e a afetação; um elemento romântico, no entanto, será deixado de lado na época moderna: o sentimento. O grotesco foi outro elemento importante a ser absorvido na modernidade, com sua valorização do feio e do disforme. Essa, em resumo, é a visão de Friedrich.

O texto de Berardinelli, embora atribuindo um certo fascínio ao livro de Friedrich, faz duras restrições a que se o tome como um estudo abrangente da poética do século XX. Segundo o autor italiano, as observações de Friedrich referentes à irracionalidade ou ‘desrealização’ da poesia moderna são válidas para um conjunto minoritário de poetas do século XX (e fim do XIX), particularmente os pertencentes à escola simbolista, cujo representante maior foi Mallarmé, e aqueles que posteriormente foram influenciados de maneira significativa por aquela vertente poética.
Berardinelli cita Eliot na descrição de três tipos de voz poética, dos quais apenas um, o estritamente lírico, ou seja, o poeta falando a si mesmo ou a ninguém, é característico do universo poético contemplado por Friedrich. Os outros dois tipos mencionados por Eliot, a saber, o poeta falando diante de um auditório, e o poeta criando uma personagem dramática, são destacados por Berardinelli como pelo menos igualmente representativos da modernidade, inclusive na própria obra de Eliot, a qual, embora não prime pelo uso convencional da linguagem, faz necessariamente referência a “um suporte externo, cultural, realista e comunicativo” (‘correlativo objetivo’). Segundo Berardinelli, a poesia do século XX exibe mesmo uma tendência a contrapor-se à estética simbolista, perceptível em muitos poetas ignorados ou desvalorizados na análise de Friedrich. Já se mencionou Eliot, mas há muitos outros, inclusive representantes de poéticas nas quais o hermetismo nem se encontra presente, como Whitman e Brecht.
Berardinelli refuta a argumentação de Friedrich em pontos importantes. A multiplicidade estilística e a fragmentação, características encontráveis em Eliot e Apollinaire, longe de serem – conforme argumenta Friedrich – expressões de um divórcio da realidade, seriam técnicas empregadas com o intuito de retratar uma certa fragmentação da própria realidade social e cultural do século XX. Segundo Berardinelli, a análise de Friedrich peca, em última instância, por ser injustificadamente a-histórica. Cumpre notar que Friedrich, na realidade, não é tão a-histórico como Berardinelli faz crer, e, no capítulo 2 de seu livro, explica a perda de representação e a perda do eu como uma fuga da realidade desagradável do século 19. As fantasias e absurdos “tornam-se aspectos de uma irrealidade em que Baudelaire e seus seguidores querem penetrar, para evitar uma realidade cada vez mais restritiva.” (citado por de Man, p. 194). De Man considera a explicação de Friedrich “grosseira, irrelevante e pseudo-histórica”.
Berardinelli cita a seguir Heller e Adorno, os quais postulam a inevitabilidade da conexão da poesia com a realidade; desse modo, diz Adorno, o próprio ‘anti-realismo’ acaba sendo uma tomada de posição com relação a uma realidade sentida como inaceitável ou insuportável. A individuação extremada acaba estabelecendo paradoxalmente uma comunicação universal, uma forma eficaz de expressão autêntica e não corrompida pelas formas sociais de dominação e despersonalização. Embora mais elaborada teoricamente, a posição de Adorno não chega a contradizer a explicação de ‘fuga da realidade’ de Friedrich.
Adorno, citado por Berardinelli, postula ainda a existência de uma corrente poética que de certo modo renuncia à individuação em favor de uma “força coletiva”; Lorca e Brecht são citados como expoentes dessa corrente.

Vamos agora tecer alguns comentários sobre o artigo de de Man, o qual, após dialogar com conceitos de Friedrich e Baudelaire, envereda por teorizações pessoais. Note-se preliminarmente que o diálogo de de Man com o texto de Friedrich não deixa de ser válido, mesmo que eles tenham conceitos diferentes do termo ‘moderno’. Esse diálogo centra-se na crítica que de Man faz sobre algumas afirmações específicas de Friedrich sobre poesia recente, que postulam uma tendência à ‘desrealização’, entendida como resistência à redução do poema a significados predeterminados; de Man argumenta sobre uma base concreta, que é o poema Le tombeau de Verlaine, de Mallarmé, o qual é submetido a uma breve exegese.
Inicialmente, de Man faz um resumo de algumas teorias da modernidade, começando pelas ideias de Yeats, que estabelece uma diferenciação entre poesia de representação (ou mimese), e poesia sem vínculo com a representação, a qual encarna segundo Yeats a modernidade. Aquela tem o espelho como símbolo, enquanto que a última é simbolizada pela lâmpada. Citando de Man, “a poesia moderna é descrita por Yeats como a expressão consciente de um conflito no interior da função da linguagem enquanto representação e no interior da concepção da linguagem como ato de uma vontade autônoma.” Friedrich escreveu sobre a poesia moderna de maneira “surpreendentemente análoga” a Yeats. Em última análise, ambos veem a obscuridade da poesia moderna como decorrente da perda da sua função representacional. “Perda de realidade representacional e perda do eu são inseparáveis”, acrescenta de Man.
De Man, ao contrário de Friedrich e também de Berardinelli, recusa-se a endossar a categorização tradicional da poesia simbolista como estritamente abstrata ou avessa à representação. Armado de um conhecimento bastante erudito da obra de Mallarmé e Verlaine, e de recursos hermenêuticos sofisticados como associações de imagens e atribuição de sentidos metafóricos, ele convincentemente decifra algumas estrofes do poema Le tombeau de Verlaine em termos absolutamente coerentes e consistentes com declarações conhecidas de Verlaine sobre si mesmo, e com a visão do próprio Mallarmé sobre a poesia. Basicamente, Verlaine, secundado pelo próprio Mallarmé, opunha-se a visões sentimentais e cristãs sobre a morte, as quais reputa como superficiais e obscurecedoras do real legado literário do poeta.
De Man baseia-se na já mencionada oposição conceitual entre linguagem representacional e linguagem alegórica para em seguida refutar a tese de Stierle de que Mallarmé não pode ser entendido como poeta representacional. O eu poético em Mallarmé, diz de Man, embora em casos extremos seja “muito impessoal, desencarnado e irônico”, raramente ou nunca pode ser considerado inexistente.
A hipótese da evolução histórica em direção a uma rarefação da representação e do eu, tal como postulada por Friedrich e Jauss, tem, na visão de de Man, um apelo psicológico primitivo.
A relação entre a posteridade e Baudelaire é, segundo de Man, um exemplo de como as teorias têm a tendência de ignorar aspectos da realidade que as contradizem. Em particular, de Man aponta a falta de atenção dada por Mallarmé ao Baudelaire tardio de Petits poèmes en prose, o qual exibe forte característica alegórica e dificuldade de compreensão.
Generalizando a sua argumentação, de Man postula que toda poesia lírica é ambivalente, sendo simultaneamente representacional e não-representacional. A alegorização do poema é algo que não pode ser evitado, pois está na própria raiz do discurso poético, quer o poeta tenha ou não consciência disso. As faces alegórica e representacional são, no entanto, como que inimigas entre si: o elemento representacional é necessário para possibilitar um primeiro acesso ao poema, o qual, no entanto, em seguida ‘convida’ a uma interpretação alegórica que nega a interpretação representacional anterior. A interpretação alegórica adquire imediatamente um status representacional que é base para uma nova interpretação alegórica, num ciclo infinito em que cada estágio anula o anterior.
Prosseguindo, de Man nega a existência de um princípio que leva “da história à modernidade”. Sua argumentação nesse ponto é bastante obscura, seja devido ao texto em si ou à tradução usada. O que pode significar a afirmação de que “a alegoria pode apenas repetir cegamente o seu modelo prévio, sem uma compreensão definitiva”?
Sua conclusão é que “quanto menos compreendemos um poeta, (...) maiores são as possibilidades de que ele seja verdadeiramente moderno; isto é, diferente daquilo que – erradamente – pensamos que somos [itálico nosso].” Como interpretar essa conclusão, seja em si mesma ou em relação à postulação inicial de modernidade como partilha de um “sentido do presente temporal”? (Nota: o termo que pusemos em itálico [somos] parece ser um erro de tradução; a palavra correta parece ser “são”.)

Teceremos alguns comentários finais sobre os textos analisados. O livro de Friedrich (do qual a presente análise considera apenas uma parte), por mais contestado que seja, permanece como um eixo importante em torno do qual, ao menos em parte, os outros dois textos giram. Seu conceito básico é a ausência da função de representação na poesia moderna, a qual é responsável pela sua obscuridade e estranheza. Berardinelli adota um enfoque muito mais amplo, admitindo no entanto a validade da análise de Friedrich para um grupo restrito de poetas, encabeçados por Mallarmé. Não há unidade na análise de Berardinelli; tendo por objetivo um apanhado abrangente da poesia do século XX, ele adota uma postura enciclopédica, baseada principalmente em citações de outros críticos, cobrindo principalmente poetas aos quais a aplicação dos conceitos de Friedrich tem validade parcial, necessitando ser socorridos por elementos históricos e sociais, e poetas aos quais a análise de Friedrich simplesmente não se aplica (p. ex., Whitman). De Man, por sua vez, apresenta um trabalho mais ambicioso, em que, na esteira de Baudelaire, postula a modernidade como um conceito teórico atemporal. Ao contrário de Berardinelli, não lhe interessa nem questionar a ausência de outros tipos de poesia no estudo de Friedrich, nem introduzir elementos históricos ou político-ideológicos para enriquecer essa análise. Seu enfoque é muito mais relacionado a uma alegada essência poética, em termos da dualidade representação/alegoria. De Man não é bem sucedido, ou ao menos não é suficientemente claro, no que concerne à explicitação de uma ligação entre sua definição inicial de modernidade e suas conclusões apoiadas na ambivalência poética e seu efeito na recepção.


REFERÊNCIAS

BAUDELAIRE, Charles. O pintor da vida moderna. In: Poesia e prosa. Organização: Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

BERARDINELLI, Alfonso. As muitas vozes da poesia moderna. In: Da poesia à prosa. Organização de Maria Betânia Amoroso. Tradução de Maurício Santana Dias. Rio de Janeiro: Cosac & Naify, 2007.

DE MAN, Paul. O ponto de vista da cegueira. Ensaios sobre a retórica da crítica contemporânea. Tradução de Miguel Tamen. Lisboa: Angelus Novus & Cotovia, 1999. Título original: Blindness and insight. Essays in the rhetoric of contemporary criticism. 2nd ed., revised, 1971.

FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da Lírica Moderna (da metade do século XIX a meados do século XX). Capítulo I: Perspectiva e retrospecto. Tradução: Marise M. Curioni. Tradução dos poemas: Dora F. da Silva. São Paulo: Duas Cidades, 1991. Tradução a partir da 2ª ed. em alemão, 1966. [1ª ed. do texto original, 1956]

 

THE SORROWS OF YOUNG WERTHER

Original title: Die Leiden des jungen Werthers
Author: Johann Wolfgang Goethe
Date: 1774; rev. ed. 1787

(Read in the 1st semester 2009.) I found it quite enjoyable and inspired; I do not seem to have much company in this appreciation, judging from some acquaintances' appraisals, and some celebrities' too. Anyway, apart from some formal imperfections which are now universally known (e.g. the omniscient narrator), this book is quite irreproachable and makes for a delightful reading, and is not in the least touching in an emotional sense (this is an asset, the way I see things). Of course this is a subjective assessment, from someone living in the 21st century, yadda yadda, it was not thus when it first came out, as is sadly notorious.

 

HAMLET

Author: William Shakespeare
Date: c. 1599

More first semester stuff. Second reading of this. This time I made the supreme effort of reading it in the original (with the help of a translation to Portuguese). I fell prey to endless musings on the play's subtleties, of which the most notable ones were the theme of the Number Two and duality, a theme prompted by a Web forum discussion, the address of which I am not sure I am able to recover; and the hypothesis, read on Harold Bloom's Shakespeare: The Invention of the Human (aside from that, an often unbearable chapter), but apparently first formulated in Marc Shell's Children of the Earth: literature, politics, and nationhood, that Hamlet is hesitant to kill Claudius because of the possibility that the latter is his biological father.

 

RICHARD III

Author: William Shakespeare
Date: 1591

With much delay, I am now updating the log on this year's first semester readings. Reading this play was a very tiresome experience. As you know, this is the fourth installment on a historical tetralogy, following the three Henry IV plays; this means many references to events and characters of the previous plays, which I did not read, and therefore had to get acquainted with by other means. On top of that, the play is not very good. Repeating a common opinion, with which I agree, the main character is very amusing, but there is nothing much else in the play to stir our interest.

 

LYSISTRATA

Author: Aristophanes
Date: 411 B.C.

I read this in the first semester of the current year. It is fun reading; I have nothing of value to remark about it. A summary of the play and a general review of it can be found on its Wikipedia article.

Tuesday, October 06, 2009

 

Patético / Patos

Do "Novo Dicionário Brasileiro Melhoramentos", 3ª edição, revista (1965):
patético, adj. (l. patheticu). 1. Que comove, que enternece. 2. Anat. Diz-se do músculo grande oblíquo do olho. 3. Anat. Diz-se do nervo craniano motor que inerva o grande oblíquo do olho. S.m. 1. O que comove, o que fala ao coração. 2. Caráter do que é patético. 3. Gênero patético. 4. Arte de despertar nos outros os sentimentos ou afetos de que estamos possuídos.

Da "Grande Enciclopédia Larousse Cultural" (1995):
PATÉTICO adj. (Do gr. pathétikos, pelo lat. patheticus.) 1. Que desperta compaixão ou tristeza; comovedor, tocante. - 2. Que revela forte emoção: apelo patético. - 3. Trágico, sinistro: Teve um fim patético. Anat. Nervo patético ou patético (s.m.), cada um dos nervos que compõem o quarto par de nervos cranianos; nervo troclear. (O nervo patético é um nervo motor do olho que inerva o músculo grande oblíquo.)

Do "Novo Dicionário Brasileiro Melhoramentos", 3ª edição, revista (1965):
patos, s.m., sing. e pl. (gr. pathos). Qualidade na fala, em escritos, acontecimentos etc. que excita à piedade, à simpatia ou à tristeza.

Da "Grande Enciclopédia Larousse Cultural" (1995):
PATOS s.m. sing. e pl. (Do gr. pathos, sofrimento, paixão.) 1. Torneio de estilo caracterizado pelo recurso a figuras de retórica que provocam intensa emoção. [Os gregos consideravam o pathos e o ethos (costumes) como características importantes da oratória: o primeiro, ao apelar para os sentimentos, tornava a eloquência passional e patética; o segundo, dirigindo-se à razão, dava-lhe um tom moderado e comedido.] - 2. O patético expresso na fala, nos escritos, nos acontecimentos, etc.

Sunday, September 20, 2009

 

School is Paradise, volume 1 (in Portuguese!)

Texto 1 (de "não foi fácil" até "diferenças é bom.").
Texto 2 (de "se a questão" até "coerção racial").
Texto 2 (link alternativo)
Texto 3: Depoimento de Jorge Amado. In: RAILLARD, Alice. Conversando com Jorge Amado. Rio de Janeiro: Record, 1990. De "Há hoje uma" até "a nossa vida".
(A seleção dos textos acima é do professor Jefferson Cano, que solicitou a análise comparada dos mesmos a seus estudantes.)

Os três textos remetem a discussões sobre a questão racial no Brasil; cada um deles provê uma resposta própria a essas discussões. Serão aqui tecidos comentários sobre cada uma dessas respostas individualmente e, subsequentemente, tentar-se-á estabelecer relações entre elas.
I. O primeiro texto traz à baila um certo pensamento de fundo racista que vigorou em certos círculos intelectuais ditos eugenistas do começo do século, o qual postulava, com pretensões científicas, diferenças "qualitativas" entre indivíduos racialmente "puros" e outros provenientes do cruzamento entre raças. Gilberto Freyre, em "Casa Grande e Senzala", menciona alguns desses grupos, chamados de arianistas, os quais atribuíam valor superior a raças ditas "arianas"; no caso específico de sua ideologia, não só a mestiçagem seria problemática, como também haveria uma hierarquia entre as raças denominadas puras. Paulo Prado, em "Retrato do Brasil", em seu Pós-escrito, demonstra preocupação com a questão da mestiçagem; professa a opinião de que não haveria diferenças sensíveis entre as raças ditas puras, mas que nada se poderia dizer até aquele momento quanto à nova raça que estaria sendo produzida pelo processo de mestiçagem em curso no Brasil. Tanto Prado quanto Freyre explicitam a predominância da situação social ou econômica sobre a mera característica racial no que toca à explicação de alguns problemas sociais brasileiros, ou de algumas características psicológicas que eles atribuem ao brasileiro; um dos aspectos socioeconômicos que, segundo esses autores, teve um papel pernicioso sobre o Brasil e sobre o brasileiro foi o regime de escravidão. Nenhum desses autores, por outro lado, desqualifica a discussão em si; o que parecem estar dizendo é: pode haver diferença entre as raças, e isso é um assunto digno de estudo; no entanto, para os problemas levantados, a explicação histórica e sociológica é, segundo eles, suficiente e mais plausível. Freyre aponta vantagens para o convívio social provenientes da mestiçagem; por exemplo, é sua opinião que as relações entre senhor e escrava "adoçaram" as relações entre as classes sociais no Brasil escravista.
O texto de Vianna articula-se em torno das questões expostas no parágrafo anterior, propondo uma valoração da condição de mestiço. Ele remete a uma aparente necessidade de criar uma identidade ligada essa condição, a qual tenha um caráter positivo. Expressa uma oposição explícita aos preconceitos pseudocientíficos que atribuem uma suposta inferioridade biológica ao mestiço. É importante notar que não se trata de uma identidade apoiada especificamente numa raça, já que o que a caracteriza é justamente o fato da perda dessa identidade; a noção de raça é substituída pela de "mistura". O último parágrafo é bastante ambíguo: quando ele fala do "pensamento brasileiro", não fica claro se ele se refere às análises de pensadores como Freyre, que são vistas por alguns como uma espécie de elogio da miscigenação; ou se ele se refere a uma espécie de pensamento coletivo do povo brasileiro, o qual, através de sua postura prática perante a miscigenação, estaria "dizendo" que "misturar diferenças é bom". Parece mais provável a segunda opção, a qual, no entanto, não deixa de ter elementos intrigantes: atribui-se uma qualidade consciente, de pensamento, à qual se acrescenta mesmo o adjetivo "corajoso", a um processo histórico coletivo onde o instinto, as necessidades, conveniências e circunstâncias, às vezes o mero acaso, são fatores plausivelmente determinantes. O sentido do texto não parece estar ligado a uma exposição objetiva de fatos históricos, mas antes parece ser parte daquela mencionada construção de identidade; quando ele diz, ao final, que "misturar diferenças é bom", pouco sabemos sobre o que ele entende por "bom", ou para quem isso seria "bom"; mais uma vez, trata-se de um discurso auto-alimentador, com intuito de imbuir auto-estima a um segmento majoritário da população, o qual tende a construir um dos aspectos de sua identidade em torno da noção de "mestiço". O que não fica claro no texto é a quem exatamente esse discurso estaria fazendo oposição. Explicitamente, trata-se de uma negação de um pensamento preconceituoso passado, o qual supõe-se estar historicamente vencido. Implicitamente, o texto contém a suspeita de que o preconceito ainda encontre ressonância no presente. Estaria o autor simplesmente opondo o Brasil a outros países onde a miscigenação não ocorreu significativamente? Ou será que sua mensagem tem destinatário interno ao país?
II. O texto de Schwarcz tem um caráter de crítica ao pensamento científico brasileiro, o qual, segundo a autora, concentrou-se excessivamente em abordagens de cunho racial, negligenciando importantes fatores histórico-sociológico-psicológicos que passam ao largo de fatores raciais.
É possível entender de onde vêm os argumentos da autora quando lembramos que textos clássicos como "Casa Grande e Senzala" (1933) e "Sobrados e Mucambos" (1936), ambos de Gilberto Freyre, articulam-se predominantemente em torno do conceito de raça. (O livro de Paulo Prado, "Retrato do Brasil", também faz da composição tri-racial brasileira o alicerce a partir de onde ele constrói sua "teoria" do caráter nacional. Esse livro não tem hoje peso significativo, se é que já o teve, no pensamento científico nacional.) Um aspecto da abordagem de Freyre, em "Casa Grande e Senzala", é que o papel social do indivíduo é condicionado quase absolutamente por sua raça. Dessa forma, toda a contribuição do africano à formação da sociedade brasileira ocorre quase à sua revelia: a miscigenação é um fator de influência, mas ela ocorre por iniciativa do senhor branco; as influências ditas "culturais" na língua, na culinária, etc. são fruto quase espontâneo do desempenho das funções exercidas pelos escravos no seu dia-a-dia. Mesmo em "Sobrados e Mucambos", onde vemos o afro-descendente, agora caracterizado como "mulato", com maior grau de liberdade na sociedade, Freyre insiste em mapear seu comportamento social com base em sua carga racial miscigenada.
A visão de Freyre, embora superficialmente tenha cunho inclusivo e não-racista, não difere radicalmente daquela de Martius, em sua proposta de História do Brasil: o País, para eles, é definido a partir da interação entre as três raças. Em contraste com essa visão, temos, por exemplo, o estudo de Robert Slenes ("Malungu, ngoma vem!": África coberta e descoberta no Brasil, 1991-92), onde se estuda a formação de comunidades secretas entre os escravos, com base em elementos linguísticos e religiosos comuns entre eles, e como essas comunidades chegaram a se organizar em rebeliões. O escravo aqui é visto como elemento ativo, construindo sua identidade e agindo com base nela. A raça é um mero detalhe, que de certa forma determinou inicialmente sua marginalização social, mas não determina o comportamento dos indivíduos.
III. O depoimento de Jorge Amado parece ter como cerne a crítica ao assim chamado "movimento negro" no Brasil. Uma multiplicidade de argumentos é listada por Amado, tendo como premissa básica a de que existiria uma "identidade brasileira", a qual seria fruto da mistura das três raças: branca, negra e índigena; a identidade "negra" em solo brasileiro seria uma ficção, não possuindo contrapartida na realidade nacional atual. Amado preocupa-se com possíveis desdobramentos racistas que poderiam advir de tais ideologias. Cita em sua defesa Gilberto Freyre, que teria, em "Casa Grande e Senzala", proposto um modelo de convivência entre as raças marcado por uma tendência à harmonização pela miscigenação. Amado parece temer que, opostos à visão legada por Freyre, movimentos sociais sem fundamentação histórica consistente possam, à custa de ficções ideológicas, ampliar-se e constituir-se em focos de ódio e instabilidade social.
A questão do racismo tomou triste importância no século passado, principalmente em conexão com as catastróficas consequências da ideologia nazista. As respostas da civilização ao racismo têm sido pautadas por duas vertentes; por um lado, a ciência tem-se encarregado de desmontar os mitos de "superioridade racial" e o da validade do próprio conceito de raça; por outro lado, a valorização das chamadas "sociedades abertas", conforme a expressão de Karl Popper, as quais são geralmente identificadas com ideais democráticos de liberdade e estado de direito, tendem a minimizar as condições para que o racismo prolifere em suas formas mais devastadoras. No caso das afirmações do texto de Jorge Amado, existem alguns pontos problemáticos ou pelo menos duvidosos. Amado parece implicar que a formação de identidades com base em raça, como quer que se a entenda, tem necessariamente conotações racistas. O estudo, mesmo que superficial, da história humana mostra que o conceito de raça é muito poderoso, e não há como "fazê-lo desaparecer" apenas com boa-vontade. Vemos, no entanto, que, embora as identidades raciais sejam onipresentes, o racismo, ao menos em suas formas mais explicitamente destrutivas, depende de uma conjunção bastante específica de fatores históricos.
No caso brasileiro, é ingenuidade supor que associações não existam, formal ou informalmente, entre brasileiros de origens étnicas comuns, sejam estas quais forem. É também implausível a noção de que movimentos sociais venham a ganhar força sem a contrapartida de um fenômeno social real que os alimente. As ideologias, importadas ou não, são meros intrumentos para a concretização de um anseio, e tendem a se ajustar dinamicamente aos fatos. Por fim, a posição de Jorge Amado, mesmo que supostamente motivada por um genuíno senso de brasilidade e um desejo legítimo de confraternização nacional, traz um preocupante elemento reacionário na medida em que desqualifica ou anatematiza a organização de grupos como mecanismo de defesa à opressão; de certa forma, essa postura, se generalizada, na medida em que tenta fragilizar esses grupos, constitui, ela sim, uma prática disfarçada de racismo.
Quanto ao argumento de Amado de que não existiria uma base biológica para a formação de uma identidade negra no Brasil, ele baseia-se em falsas premissas. A formação de identidades não depende necessariamente de afinidades biológicas rigidamente estabelecidas, mas baseia-se em construções culturais fundadas sobre signos diferenciadores compartilhados arbitrários (sinais diacríticos); um belo exemplo de como essas identidades são formadas encontra-se no estudo de Manuela Carneiro da Cunha, "Negros, Estrangeiros"; em seu capítulo "Brasileiros em Lagos", ela mostra como os brasileiros libertos emigrados à África no século 19 constituíram uma comunidade à parte, com seus valores e sua herança religiosa e cultural brasileiros, em oposição aos valores africanos; outro interessante estudo de caso de formação de identidade comum motivada pelas circunstâncias, entre pessoas de etnias diferentes, é o supracitado artigo de Robert Slenes, "Malungu, Ngoma vem!"; nele se vê como os escravos vindos de nações africanas distintas forjaram uma identidade comum, em resposta à sua condição comum de escravo. Em suma, as identidades sociais surgem como resposta a um contexto social específico, seja ele de opressão ou discriminação, seja da necessidade de convívio baseado em valores comuns.
Conclusão. Comparando os três textos citados, vemos que o pensamento de Gilberto Freyre faz sentir sua presença em todos, mesmo que em um deles (Schwarcz) seja como objeto de crítica. Seu modo de pensar a realidade brasileira teve consequências profundas, para o bem e para o mal, não só na obra de outros cientistas como no próprio modo como o brasileiro se vê e vê o país. A visão de Freyre fez bem à auto-estima nacional, de certa maneira, com sua abordagem até certo ponto anti-racista e inclusiva. Por outro lado, sua valorização de aspectos não-confrontacionais da relação entre os diversos segmentos sociais levou a uma distorção nos estudos sociológicos e históricos, os quais negligenciam o papel ativo dos indivíduos em situações de conflito; no âmbito mais amplo da sociedade, levou por vezes à alimentação de uma certa ideologia conciliadora e minimizadora desses mesmos conflitos, a qual pode se prestar à perpetuação de situações de opressão.

Monday, June 01, 2009

 

MEDEA

Author: Euripides
Date: 431 BC

No one can accuse Euripides of being subtle. After reading only two of his plays, it becomes obvious that he relies, for his plots, on the most basic, or perhaps I should say base, impulses of mankind; he likes violence, lots of violence. Medea is like a dish that leaves a bitter taste on the mouth; there is no catharsis here, and the same could be said of Orestes. It is too early for me to reach an understanding of this author's world, but I could venture some tentative readings. I do not see him as a cynic, but rather as someone who incorporates philosophy and politics into his plays in an unusual way; these themes are imbedded in the dialogue at times, but Euripides refuses to offer a dramatic solution to the problems he exposes; that would be too easy: reality is more complex than that, he seems to be saying; he'd rather shock us, perplex us, because the real world is perplexing, and there is no easy solution to the world's problems, which ultimately stem from human nature, in all its dimensions, including the darker ones.

 

ORESTES

Author: Euripides
Date: 408 BC

Very interesting play. Very unconventional, and very disturbing in its moral aspect. Perhaps on account on those characteristics, it has a modern feel about it. It feels like a hard-boiled novel by James Hadley Chase or a film noir, save for its ending, which pushes the envelope even further. The deus ex machina cannot be dismissed as 'too easy' or 'uncalled for' or 'not stemming from the plot' without some deeper reflexion; one must consider that the absence of Apollo throughout most of the play may be viewed, after all, as an important factor of unbalance. Maybe the real theme of the play is the havoc which comes about in the world when the gods cease to interfere. More about Euripides in the next entry.

 

ANTIGONE

Author: Sophocles
Date: 442 BC

This play is well regarded generally; my opinion is that it flows well, and is effective dramatically (although I haven't seen a performance of it). People like to point out its political reverberations, and I suspect they are right.

 

OEDIPUS AT COLONUS

Author: Sophocles
Date: written in 406 BC, first produced in 401 BC

I rarely enjoy the works of very old people, as they don't seem to have the urgency and the ease of narrative flow of those written by younger ones. This play is by no means an exception to the rule. And it has the feel of a sequel, in its less savory aspects of revisionism and unessentiality. That being said, it is wonderfully written, perhaps even more so than the other Theban plays; and people have found a wealth of meaning in it, so it must have some value. Some remarks are due here, about some details of the plot that almost no one seems to get right, or pay attention to anyway. Oedipus is wanted by the Thebans for some very specific reasons concerning the religious obligations toward the dead. Namely, if he dies in an unknown place, his grave will go either unattended or it will be attended by someone other than his Theban relatives. This would bring ill fortune upon his relatives. This is why they want to keep him at hand; so that they can bury him in a place where it would be easy for them to pay the posthumous duties toward him. The perverse twist here is that they do not consent to bury him inside the gates of Thebes, because he is "polluted" by his former patricidal and incestuous acts; thus they are willing to bury him right outside those gates; as expected, Oedipus is not at all pleased with this proposed arrangement, and prefers instead to give the knowledge of the location of his grave to the king of Athens, who offered him hospitality. It may be a little hazardous to give such a positive interpretation of this text based only on translations as is my case. So be it, it is done; the fact is, some translations conform exactly to this interpretation, others only partially, and the rest not at all. Storr is exactly right, Roche is perfectly wrong, to give only two examples.

 

OEDIPUS THE KING

Author: Sophocles
Date: 429 BC

Probably one of the most perfect literary works of all times, if I may indulge in the kind of pointless comparative musing which make the fame of some literary critics of late. Not only it is perfectly structured, but the richness of meaning is bewildering - points which are hardly in need of stressing, given its huge cultural reverberation. As for the style, it is clear to me, after reading the three Theban plays, that Sophocles is an accomplished writer, even by today's standards. Of course, I only had translations on which to base my opinion, but there is only so much improvement a translator can effect on a work.

 

THE EUMENIDES

Author: Aeschylus
Date: 458 BC

The Eumenides is apparently well regarded mostly for its political subtext. The opposition between the Erinyes, which stand for individual justice, and Law as embodied by the Areopage, and the eventual cooptation of the Erinyes (in its new, "tamed" identity of the Eumenides) by this very legal system, has been deconstructed as the intrinsic reliance of any social organization upon some form of social coertion.
This is the third play of the Oresteia. My opinion of this trilogy is not very favorable. It is hard, in my opinion, to establish a personal connection with these works without a certain condescendence, and without bearing in mind at all times their historical, religious, and sociological context. Of course we all love Aeschylus for being the first, for having opened the way, so to speak. I am not denying that. But that is not the same as saying he was a great author.

 

THE LIBATION BEARERS

Author: Aeschylus
Date: 458 BC

This is the second play of the Oresteia, wherein Orestes plans and executes its revenge for the murder of his father, killing Clitemnestra and Aegisthus. It has its share of intrigue, and reflexion too; it is probably dull and entertaining in equal shares. Some people point out the similarity between the Oresteian myth and the Danish medieval legend of Amleth, all the more intriguing because all evidence points to the inexistence of any point of contact between the civilizations which gave birth to each myth.

 

AGAMEMNON

Author: Aeschylus
Date: 458 BC

The first part of the Oresteia trilogy, and perhaps the best play of the three, on account of the intense personality of Clitemnestra.

 

THE PERSIANS

Author: Aeschylus
Date: 472 BC

The Persians is all about "don't mess with the Greeks" told from the point of view of those that did, and didn't come off well. The descriptions of the war are the most interesting parts of the play. Nothing further to remark here. From a purely subjective angle, in regards to the amount of aesthetical pleasure involved in the reading, I would say - and this goes for the Oresteia too - that this is not an author that impressed me. "Primitive" is the word that comes to mind.

 

POETICS

Author: Aristotle.
Date: 335 BC

I will abstain from commenting this book, since I don't think I can add something relevant or original at the present moment to the already extensive body of literature concerning it.
Some minor remarks, though. This text is full of contradictions and, in the translations which I have read, of obscure passages. One of the most blatant contradictions is the fact that, at one point, Aristotle considers that an unhappy ending is the best way to end a tragedy; in a later passage, he claims that the best type of recognition is that in which the character perceives his error when he is about to commit the act, and refrains from doing it - which in my view prevents an unhappy ending.
Another curious fact is the statement that some forms of music, being mimetic, are considered as poetry.

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